A proposta que prevê o fim da escala 6×1 promete mais tempo de descanso para os trabalhadores brasileiros. Mas, ao mesmo tempo em que a medida é defendida por quem busca melhorar a qualidade de vida e reduzir o adoecimento relacionado ao trabalho, ela também levanta uma pergunta que divide especialistas, empresários e trabalhadores:
Quanto essa mudança vai custar para a economia?
Segundo a advogada trabalhista Flávia Somacal, as empresas poderão enfrentar um aumento entre 15% e 20% nos custos operacionais para se adaptar à nova realidade, caso a proposta seja aprovada também pelo Senado.
“Estamos falando de uma mudança que impacta diretamente a organização das empresas. Em muitos casos será necessário contratar mais pessoas, reorganizar escalas ou absorver novos custos operacionais”, explica.
A discussão ganhou força após a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pela Câmara dos Deputados. O texto prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas sem redução salarial.
A proposta tem sido defendida principalmente por seus possíveis impactos na qualidade de vida dos trabalhadores. Por outro lado, empresários e entidades do setor produtivo alertam para os reflexos econômicos que podem surgir a partir da mudança.
É justamente nesse ponto que começa o debate: como equilibrar melhores condições de trabalho sem aumentar excessivamente os custos para empresas, consumidores e para a própria economia?
O custo pode aumentar até 37,5%
As projeções sobre o impacto financeiro variam conforme o setor e o modelo de operação de cada empresa.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que a redução da jornada pode representar um aumento médio de 7,84% no custo da mão de obra.
Já entidades empresariais, como a FecomercioSP, trabalham com cenários mais elevados. Em alguns segmentos, o custo da hora trabalhada pode aumentar até 37,5%.
Isso acontece porque o trabalhador passaria a cumprir menos horas semanais sem redução salarial, elevando o valor pago por hora efetivamente trabalhada.
Além disso, empresas que funcionam durante toda a semana precisarão reorganizar equipes para manter o mesmo nível de atendimento.
Mercado vai fechar aos domingos?
Uma das dúvidas mais frequentes desde que a PEC ganhou repercussão nacional envolve justamente o funcionamento do comércio. Supermercados vão fechar aos domingos?
Segundo Flávia Somacal, não. “Os mercados vão continuar abrindo aos domingos. Os hotéis vão continuar atendendo aos finais de semana. O que muda é que as empresas terão que reorganizar suas equipes para atender essa nova realidade.”
Na prática, o consumidor continuará encontrando os serviços disponíveis. A diferença estará na forma como as escalas serão distribuídas.
Funcionários poderão trabalhar em combinações diferentes de dias da semana, exigindo maior planejamento por parte das empresas.
Mais contratações ou mais custos?
Para manter horários de funcionamento semelhantes aos atuais, muitas empresas poderão precisar contratar novos funcionários.
Uma operação que hoje funciona com equipes ajustadas à escala 6×1 poderá precisar ampliar seu quadro para cobrir os dias de descanso adicionais.
Outra alternativa seria aumentar o pagamento de horas extras, o que também gera elevação dos custos.
Para Flávia, essa adaptação será especialmente sensível em setores que dependem de atendimento contínuo.
“A empresa não pode simplesmente deixar de atender o cliente. Ela precisará encontrar uma forma de manter a operação funcionando.”
O consumidor também pode sentir os efeitos
Embora a discussão esteja concentrada na relação entre empregado e empregador, economistas e empresários apontam que parte desses custos pode chegar ao consumidor.
Quando uma empresa enfrenta aumento de despesas, normalmente busca compensar esse impacto por meio de ganhos de produtividade, redução de gastos em outras áreas ou repasse parcial aos preços.
“As pessoas analisam a proposta como trabalhadores, mas também são consumidoras. Quando o custo operacional aumenta, existe a possibilidade de reflexos nos preços de produtos e serviços”, observa a advogada.
O impacto exato dependerá do setor, da concorrência e da capacidade de adaptação de cada empresa.
O Brasil está preparado para essa mudança?
Um dos argumentos mais utilizados por quem defende o fim da escala 6×1 é a melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores.
A ideia de trabalhar menos dias, ter mais tempo para a família, lazer e descanso já é realidade em alguns países da Europa e frequentemente aparece como referência no debate brasileiro.
Mas, segundo a advogada trabalhista Flávia Somacal, é preciso analisar se a realidade econômica brasileira é comparável à desses países.
“Esse é um modelo que já existe em alguns países europeus, mas precisamos nos perguntar se o Brasil está preparado para uma mudança desse tamanho. Nossa realidade econômica, tributária e produtiva é muito diferente.”
Para ela, a discussão não pode ser limitada apenas ao número de dias trabalhados.
É preciso considerar fatores como produtividade, geração de empregos, capacidade de adaptação das empresas e os impactos que a mudança poderá provocar em toda a cadeia econômica.
Ao mesmo tempo, Flávia reconhece que a proposta surge em um contexto de crescente preocupação com a saúde mental dos trabalhadores.
“Hoje existe um efeito cascata. O trabalhador faz muitas horas, fica cansado, adoece, se afasta pelo INSS e isso gera impactos para toda a sociedade.”
A discussão, portanto, envolve duas questões que caminham lado a lado: a busca por mais qualidade de vida e o desafio de tornar essa mudança economicamente sustentável em um país com características muito diferentes das economias que servem de referência para o modelo.
Tecnologia pode ganhar espaço
Outro efeito possível apontado por especialistas é o aumento dos investimentos em automação.
Sistemas de autoatendimento, inteligência artificial e processos automatizados já fazem parte da rotina de muitas empresas e podem ganhar ainda mais espaço nos próximos anos.
A busca por redução de custos operacionais tende a acelerar esse movimento, especialmente em funções repetitivas e de atendimento.









